Triste, louca ou má
Triste, louca ou má. Desatinar e desatar
os nós com as expectativas de outros ou até de nós mesmos quando estamos imersos nas
expectativas dos outros é algo que dói muito, arde, fere, corta e sufoca. E isso acontece porque há ainda aquela voz social construída na gente que tenta nos colocar em
ordem, em lugares que não necessariamente seriam ou talvez fossem nossos, caso
houvéssemos possibilidades. O mundo visto pelos olhos de um homem branco,
heteronormativo, cristão, extremamente racionalizado não é o mesmo que
vivencio, mas ainda assim era o que queria pertencer.
Estudava o exílio, primeiramente, sem
saber que me sentia contemplada por essa percepção: escolhi Kundera porque
gostava da sua mania, quase infantil (e com isso quero dizer potente) de
repensar termos, palavras e o impacto delas na nossa vida. Antes mesmo de
ver Kundera dessa forma, busquei ele para entender sobre as relações entre as pessoas. Em um primeiro momento, havia um site com textos sobre
relacionamentos o qual eu sempre acessava e que trazia em seu conteúdo muitas listas, textos informativos e crônicas, por meio de um
design interessante para falar de vida a dois. Conforme muita coisa era desenvolvida nele e eu era leitora assídua, absorvi
algumas coisas: numa dessas listas de indicações, em 2013, deparei-me
com “A insustentável leveza do ser” e a justificativa de que era um livro
importante, pois abordava um modo de se perceber as relações de forma mais livre
através de quatro personagens.
Naquele tempo, emocionalmente falando,
estava em uma procura de ser a tampa da frigideira do meu, até então, namorado:
queria ser tudo para ele e para as questões dele. A vontade que possuía era a de preencher os seus buracos emocionais, justamente para que ele pudesse se completar e ser feliz
comigo. Acreditava na ideia de que, com os meus pedaços, conseguiria fazer isso
e que tal ação bastava. Estava imersa na construção social de relacionamentos como
fôrmas de completar, baseadas na imagem de alma gêmea, de encaixe. Li o livro.
Não conseguia entender o porquê de Tereza se submeter às ações de Tomas, mesmo
quando ele a traía, sabendo que ela não só percebia como sentia um sofrimento
psíquico a partir disso.
Logo, pensava: amor é esse sofrimento? Essa
sujeição?
Ao mesmo tempo, tentava entender Tomas e a
necessidade dele em querer ser tão amor livre e priorizar a
leveza/fluidez/superfície do erotismo em detrimento da
solidez/estabilidade/profundidade do relacionamento. Hoje, com experiências
particulares a mais, percebo que Tomas era um babaca e que Tereza estava se
prendendo ao entendimento de si a partir dele. É uma história risível e triste.
Mas, voltando aos entendimentos do livro de acordo com o tempo, anos depois, saí da percepção do sentimento de tristeza por Tereza e senti identificação: havia terminado um
relacionamento e me senti feito a personagem na busca por aceitar tudo por
conta de um amor e no pensamento de liberdade em torno de um relacionamento que era problemático. Essa relação que desenvolvo com os
livros é antiga: desde a infância, converso e me identifico geralmente com eles - talvez
por isso a leitura tenha se tornado um espaço de amor e de outras possibilidades e entendimentos de
mim e do mundo.
Ainda assim, Kundera ainda não havia chegado
a mim por conta do exílio, uma vez que, quando comecei a estudá-lo, resolvi não
me focar nessa parte de sua vida: o que me interessava mesmo eram as suas
palavras temas, as possibilidades e o jogo com as memórias. Estudava o texto
sem levar em conta a experiência do autor e queria me afastar disso o máximo
possível, visto que tinha como justificativa plausível as leituras sobre o seu incomodo na
interpretação de seus romances ‘a partir de’ e ‘unicamente pela’ sua
experiência enquanto ser. Mas é impossível.
O que escrevo sai de mim, mora em mim
antes de habitar a tinta – da mesma forma, o romancista também era reflexo de
sua experiência e eu percebia isso nessa vontade dele de não se colocar como
vítima ou como parte principal de observação em relação a seus livros. Eu
também não queria o papel de vítima, mas, de alguma forma inconsciente, me percebia
como uma. Anos depois, quase 10 para ser mais exata, aproximei-me de Kundera e
dessa visão do exílio como essa condição vulnerável de existência por meio de uma disciplina em que
participei; na leitura de um poema de uma escritora afroperuana, me vi em
exílio contínuo e em relação de irmandade com ela, que vivia experiências tão
semelhantes e tão diferentes de mim.
Escrevo e revejo as quantas vezes me
exilei em diversos momentos e o quanto busquei pertencimento, evitando o
entrelugar, seja no entendimento do meu gênero, da minha sexualidade, da minha
orientação sexual, da minha etnia e do conceito sociológico de raça. Em todas
essas categorias, que me encaixam e em que também me encaixei, estou à margem -
nessa construção de percepção de subjetiva, via palavras cujo significado foi
dado por outro e não por mim, ocupo lugares de invisibilidade social que são mantidos
pelas estruturas hierárquicas de poder colonial. Hoje enxergo isso. Não sem dor
e sem incomodo: cada vez é uma ferida a se estancar.
O exílio geralmente é percebido como
sofrimento pela quebra do relacionar com o que dá traços a nossa mais antiga
forma de entendimento da gente como ser: uma das primeiras coisas que
aprendemos é que somos brasileiros, que nos encaixamos nessa comunidade
imaginada chamada território brasileiro e que somos iguais perante a lei.
Aprendemos sobre os hinos, as cores da bandeira, as histórias que nos passam, a
geografia e os estados. Aprendemos também a religião católica a partir da sua
série de mandamentos a se seguir em busca de um pertencimento espiritual: ir
contra elas é ir contra a própria vida. Associamos o nosso direito de existir a
uma moral que deve ser seguida à risca, caso contrário somos ingratos e
monstruosos, indignos da nossa existência – desumanizados. Aprendemos sobre as
regras de relacionamentos e nisso vem a separação de possibilidades em
categorias para os nomes que dão às únicas experiências possíveis ou
imaginadas.
O nosso mundo e forma de se relacionar e
viver são pré-determinados em formas estáveis, enquanto a vida é mudança
contínua. O corpo é disciplinado, domesticado e docilizado – qualquer forma de
entendimento ou existência para além disso é reprimida, violentada, aniquilada.
Buscar novas formas de se construir enquanto ser e ressignificar todas as palavras-temas,
assim como Kundera realiza em seus romances, é um ato de criação e, contra toda
tentativa de morte, eu escolho a vida. Criada, escrita e experienciada por mim.
Triste, louca ou má, eu permaneço em constante construção.

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