Mistérios do planeta
Ir mostrando como se é e sendo, nesse processo, como se pode ser: eis o mistério maravilhoso compartilhado com todos nós pelos Novos Baianos.
Acabou Chorare é um daqueles álbuns que se encaixam em diversos momentos da vida e tem o poder de, pelo menos na minha, fazer o papel de tapinha nas costas quando as coisas começam a parecer estranhas ou nada acolhedoras e também quando é necessário ter coragem para seguir em frente. Em tempos transitórios, dolorosos e transformadores, a vontade de saber o futuro e querer com todas as garras determinar o amanhã é uma constante. Mistério do planeta é entender que estamos caminhando no processo e que o ser depende de possibilidades, de escolhas e de compromissos. Jogar o corpo no mundo e se arriscar é a nossa condição desde o nascer, ainda que não façamos as coisas com essa consciência toda.
Enquanto escrevo, pessoas morrem no país e no mundo: algumas de doenças e de causas que real e infelizmente não haviam outra possibilidade, outras por irresponsabilidade e descaso de uma gestão para com a vida de muitos. Junto a essas despedidas de vidas, caem por terra noções de segurança física, alimentar, pública e ecológica. Estamos em crise. Todos nós, pessoas que habitamos o que dizem ser essa esfera azul.
De alguns anos para cá, a aceleração tecnológica e a exploração ininterrupta de recursos e de pessoas tem contribuído para a criação de um pensamento de que estamos no nosso auge enquanto sociedade e que progredimos, evoluímos para nossas melhores versões. Eu me pergunto: melhores versões de acordo com que? Com quem? A partir de quais parâmetros? E qual a base de comparação? Não há resposta.
Há apenas a presença de desigualdades programadas e potencializadas, da mentalidade do consumo de tudo e todos, da otimização dos sentimentos e das emoções, da desumanização de corpos que são humanos. E o que é ser humano? Quem é essa tal de humanidade? O sistema de pensamento colonizador, exploratório, individualista, separatista, que, em muitas vezes, aparece por meio do pensamento ocidental europeizado e padronizador, é um sistema que não foi feito para ninguém, porque é adoecedor e capaz de matar física, psíquica, emocional e mentalmente . E ainda assim tentamos nos encaixar.
Não estou aqui propondo algo revolucionário ou nunca antes pensado. Ao invés de nos limitarmos, que limitemos o sistema de pensamento padronizador. A vida é muito mais potente quando não se escolhe uma única visão como regra para todos. Poder ser como se pode ser implica na compreensão do nosso poder, da nossa escolha, da nossa responsabilidade; além do entendimento de que somos um: habitamos o mesmo solo, participamos do mesmo processo e estamos dentro da mesma mudança.
Não diria que as mortes nos educam, até porque a ausência de entes queridos nos acompanham até a nossa própria ausência em matéria do mundo. Mas que possamos, a partir do luto, também pensarmos sobre as condições de vida que temos aceitado e oferecido a todos nós.
Dessa forma, que as trocas e o ato de "deixar e receber um tanto" nos encontros, enquanto fazemos a nossa passagem, sejam significantes e possibilitem a permanência dos que virão de nós, aos olhos nus (em vida) ou vestidos de lunetas (como poeiras cósmicas). Dado que habitamos o mesmo espaço tempo, que sejamos conscientes, então, da nossa participação nesse mistério de andanças individuais e coletivas, anteriores e posteriores, que é o viver.

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