Das decisões de voltar a escrever em blogs
De início, assumo que não sou a pessoa mais adequada para falar sobre escrita em blogs, devido à frequência de postagem e também ao receio da escrita. Não aquele receio de escrever por minutos e minutos conversando comigo mesma em tinta - ainda que artificial, mas aquele de publicar, de compartilhar o que escrevo e penso. Há que se ter muita coragem para ser quem se é. Nesse caso, há mais coragem ainda, porque não se trata de ser, mas de assumir a responsabilidade na escrita e na reflexão.
Há escritas que não cabem aqui, pois transbordam e são mais vivas do que essa experiência digital permite: como trazer para aqui as transformações que se passam em mais de 10 anos? Aliás, como pensar em trazer as mudanças a público sendo elas tão íntimas? A escrita revela mais do que a foto, principalmente em um mundo que é atravessado pela aceleração das forças produtivas, pela otimização e também pelo estabelecimento de relações cada vez mais líquidas. As redes sociais, que não são sociais, ao invés de nos aproximarem, criaram ilhas de ilusões de tal forma, que viver em sociedade as vezes parece um desafio constante. Não estávamos e nem estamos preparados para conseguir conciliar nossas vidas físicas com perfis virtuais: nos confundimos no meio do processo. E olha que nem preciso trazer exemplos de vida política para cá, embora saiba que vivemos sendo seres políticos...
Todas essas coisas e questões me assustam demais e me fazem querer falar sobre elas, ainda que ninguém chegue a me ouvir e ler. Isso me faz pensar no quanto o olhar do outro condiciona a gente e o quanto, por muitas vezes, nos colocamos em padrões e categorias que sequer tem a ver conosco, apenas para nos sentirmos pertencidos e aceitos. E novamente me volto para a escrita por aqui: durante muito tempo, tive medo, vergonha e insegurança de usar minha voz em tinta, com a justificativa de que o meu expressar era estranho, pouco qualificado, nada elaborado e repleto de uma infinidade de adjetivos que me faziam minar a vontade de escrever antes mesmo de tentar. E olha que tentei!
Trouxe aqui um "primeiro post", um "exercício de acreditar", um "como fazer algo legal", um "exercícios físicos" e um "sobre o passar dos anos". Textos curtos, muitas desculpas e receios sendo explicitados. O sentimento de limitação é enorme. No último, antes da escrita deste, há uma vontade maior: recusar ao suicídio em tinta. E sim, eu me recuso. A tinta, ao longo dos anos, me curou de inúmeras maneiras, permitindo a mim a descoberta de uma profissão, o conhecimento de outros mundos e, até mesmo, a criação de um lar. Um lar tinta que se expande. Obviamente que todas essas permissões aconteceram fora dessa esfera virtual, mas a autonomia adquirida requer um desafio e eu não quero e nem posso fugir desse convite. Me crio aqui também por escolha, por amor e por rebeldia.
Legitimo a mim mesma porque sei que a minha voz não está sozinha e que o penso e escrevo dizem respeito a um coletivo que é muito maior. Acredito, valido, exercito e passo pelos textos já escritos e adiciono outros poemas e reflexões já criados e que merecem fazer casa para além de mim ou da plataforma/instrumento em que se encontram. Registro os meus escritos com admiração por quem fui, quem tenho sido e quem serei. Estou caminhando em tinta e o primeiro passo está dado.

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