Uma noite com Van Gogh
A arte mexe com a gente.
Estar
em uma experiência imersiva no trabalho artístico de Van Gogh me faz pensar o
quanto a arte em suas mais diversas formas pode ser um caminho de busca e de
despertencimento. Estamos sós nessa grande sala de espelhos. Com o qual nos
identificamos e com os quais ignoramos é algo que somente nós sabemos, alguns
em níveis tão profundos e imperceptíveis que se apresentam só se os chamarmos.
A minha escrita é também meu espelho. Reflito e me vejo refletida nela. Eu, tão
muitas. Há um bom tempo que não consigo escrever, seja por falta de vontade ou
tempo, me esqueço o quanto a escrita é água, fluida, turbulenta, manancial e
vida. Porque o sangue que corre em minhas veias é líquido e eu sou composta de
muitas águas: águas de parto, águas de suor, águas de choro de alegria e de
tristeza. As águas fazem tanta parte de mim quanto eu delas. Em muitos momento
me esqueço o quanto água sou e me faço feito terra seca a procura de apenas uma
gota de água. Faz parte da natureza o estio. Respeito. Mas faz mais parte ainda
o jorro e eu jorro. Prospero. Sou cornucópia da qual a água brota sem fim.
Porque as emoções em mim me fazem me lembrar que sou e respiro vida. E com a
minha terra me torno barro, me torno gente. Água e terra me formam física e
emocionalmente, o espirito é o fogo que me aquece e o ar é a inteligência que
me é dada. Estou em elemento.
Van
Gogh faz a gente sentir e sentir lá no fundo de cada partícula a imensidão da
vida e do universo. Compartilhar a leveza e o peso de ser pela arte e na arte é
um trabalho doloroso. Pude sentir. A beleza agonizante e estonteante do sublime
tomou forma nele com toda a sua potência. Findou-se o homem. Eternizou-se a
obra. O que as liga? A emoção que sempre se renova e nos atravessa enquanto nos
tornamos parte da tela. Efeito sensorial intenso, daqueles que tira a gente da
nossa casa e faz a gente querer acolhê-lo na nossa pequenez e dizer: o tudo é
muito. E sentir o muito em sua totalidade é tarefa que só se consegue
compartilhada. Talvez a cada momento que alguém sente um pouco do todo em suas
obras, ele consiga ser suportável. Não apreensível.

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