O devir de um corpo
Literatura Afro-brasileira: processo, devir. Além de segmento
ou linhagem, componente de amplo encadeamento discursivo. [...] Uma produção
que está dentro porque se utiliza da mesma língua e, praticamente, das
mesmas formas e processos de expressão. Mas que está fora porque, entre
outros fatores, não se enquadra no ideal romântico de instituir o advento do
espírito nacional.
Eduardo de Assis Duarte. Por um
conceito de literatura afro-brasileira.
1. Introdução
ou pedido de licenças
Peço
licença.
Sendo
o campo do saber literário um reflexo de um território (espaço) e de sua
comunidade imaginada (nação), o movimento literário nomeado de Modernismo pela
literatura brasileira pode ser compreendido como aquele que passa a reconhecer,
observar, visualizar e inserir o corpo negro, que era invisibilizado e
silenciado, até então, em sua configuração. Essa atitude vem de encontro aos
ideais do movimento que buscavam a representação cultural e literária da ideia
de nação, contrariando as influências europeias e instaurando a ideia de
antropofagia, tal qual “metáfora, diagnóstico e terapêutica” que visava a
independência cultural do país e criticava as bases coloniais presentes na
construção da sociedade por meio da arte. Por consequência, o vínculo à prática
antropofágica se associa ao deslocamento da compreensão do que seria visto como
bárbaro, em uma ação quase mágica que restituiria o homem à natureza – conforme
o Manifesto Antropófago salienta.
E
o que seria mais bárbaro do que o outro, sem voz e sem representação?
Por
isso, peço licença.
Não
feito Irene[1],
que, por mais que seja preta, boa e sempre de bom humor, tem a sua voz
imaginada.
Peço
licença como um corpo que se inscreve e dialoga com autores e autoras negros que
escrevem e inventam o devir da literatura afro-brasileira – denominação que
parte da reflexão de Eduardo de Assis Duarte, em seu texto, Por um conceito
de literatura afro-brasileira, no qual se contrapõem, em um primeiro
momento, as terminologias “negra” e “afro-brasileira”, a fim de compreender
qual literatura é essa realizada pelas pessoas descendentes de africanos
escravizados no Brasil e como ela poderia ser definida e percebida no âmbito da
literatura brasileira.
A
partir dessas considerações, Duarte elenca cinco elementos identificadores que
auxiliariam e contribuiriam para a construção desse conceito: autoria,
temática, ponto de vista, linguagem e público. A proposta deste texto é, então,
comentar sobre exemplos de representações negras em diálogo com os elementos e
também de pensar na maneira em que eles corroboram na construção ficcional,
materializada ou não, de uma [(Cor)(po²)(é²tica)] em devir.
O
corpo é a primeira habitação pela qual nos inserimos nesta materialidade: corpo
que se gera em um corpo e vem ao mundo a partir do nascimento – não como
início, mas sim como passagem. O movimento da criação literária em escrita da
corporeidade preta é corpo-poética, é cor poética e é também corpo e ética.
Por corpo-poética, ressalto a profunda ligação com a literatura desse
corpo que vem de uma narrativa, representando uma sequencialidade em carne -
linguagem. Por cor poética, adentro na compreensão da diversidade das
cores que compõem as peles pretas e que, por si só, são poemas escritos no
livro móvel do universo – temática e autoria. E por corpo e ética,
reflito sobre os padrões de comportamento e normatividade que cerceiam as
experiências de pessoas pretas e conduzem os seus olhares para si e para o
mundo – ponto de vista e público.
A
associação entre os elementos e os textos-corpos-poéticas a serem referenciados
a seguir é antes mais relativa a um destaque do que a uma imposição de um
limite; sendo assim, a menção a um elemento não implica a presença apenas dele
e sim o realce dele em relação à proposta de leitura apresentada.
2.
Corpoéticas ou traços da representação negra
Quando
Carolina de Jesus, em Quarto de despejo, apresenta a sua realidade como
favelada e nos faz sentir o incômodo resultante do contraste entre suas
palavras-fome e suas palavras-alimento, ela está a relatar e a traçar contornos
para um corpo que não estava presente na literatura brasileira,
centralizando-o, arrancando-o das periferias da escrita. Para além disso, Carolina
de Jesus também está se apropriando da linguagem e criando uma língua
literária própria entre o português tido como culto e de base na escrita e o
português em uso, percebido na oralidade e no contexto vivenciado por ela e associado
ao que Lélia Gonzales, em Racismo e Sexismo na cultura brasileira,
denomina como pretuguês: forma que carrega em si as tensões históricas, sociais
e lexicais da língua portuguesa e reflete a realidade cultural do país.
Semelhante
uso do pretuguês pode ser observado nas construções poéticas dos Racionais MC’s
ao longo de seus álbuns, sobretudo em Sobrevivendo ao Inferno. A
polifonia das vozes, que se revelam e, mais do que isso, adquirem contornos ao
longo das músicas, faz da palavra-corpo-tinta-voz um meio de inserção social e
coletiva, a partir do desenho de traços e da adição de nuances para a
representação deste outro corpo, que também se centraliza - deslocando o olhar
para a margem. Como resultado, tem-se um movimento que não é mais um ato de
antropofagia, posto há processo e digestão do alimento-outro; mas sim um
hackeamento, consequência de uma infiltração de um corpo estranho e coletivo em
um ambiente com o qual não há mistura, pois, as tensões evidenciam memórias
violentas. Nesse sentido, ressalto o elemento público que norteia a sua
criação e recepção.
“A
gente combinamos de não morrer” é um conto que traz a poética da violência pela
ótica da mulher, através do domínio de uma linguagem que cria um espaço no qual
a sobrevivência faz lembrar o álbum acima citado. No entanto, ressalto a autoria
em diálogo com a vivência de um corpo que se escreve no texto ou, como a
própria escritora afirma, um texto que fala de si: “escrevivência é falar de
nóis”[2]. Nesse sentido, o verbo
revela uma ação que evoca uma voz e desenha um corpo, colocado como voz
principal ou, em outras palavras, centro: tão importante quanto “falar com” é o
“falar de”, sobretudo quando a representação é sempre coletiva e ancestralizada
– colocando-se em uma continuidade na qual o tempo não é mais linear, e sim
espiralar[3].
Concomitantemente
à fala, o silêncio também é capaz de desenhar um corpo, que não aparece por
meio do tema, do autor, do público e da linguagem, mas que se sobressai por
meio do ponto de vista, como podemos inferir em relação a Machado de Assis, que
é reconhecido por ser um dos maiores escritores brasileiros. Embora não
pertencente ao movimento modernista, o exemplo de Machado auxilia na
compreensão das dificuldades em torno da autoria negra, da temática centrada na
experiência enquanto corpo negro, da linguagem vinculada ao português de
Portugal e do público na recepção de seus textos em um país que continha uma
população majoritariamente analfabeta.
É
no ponto de vista que a potência do seu discurso se encontra e pode ser
visualizada nos romances, por meio da ironia fina em relação à sociedade
retratada, e em outros gêneros como a poesia ou a crônica, por meio de menções
tímidas e indiretas à escravização de pessoas negras. O traço-corpo de Machado
poderia ser percebido enquanto sombra, uma figura com forma e sem iluminação,
mas que, ainda assim, estava presente – feito a preta “Irene” de Manuel
Bandeira.
Por
último e não menos importante, destaco a temática em Abdias do
Nascimento, por meio da escrita de seus textos e, principalmente, por sua
militância, da qual destaco a criação do Teatro Experimental do Negro (TEM) e a
sua atuação enquanto voz coletiva que denuncia a violência contida na expressão
“democracia racial”, por meio de seu livro O genocídio do negro brasileiro.
A partir da imagem corpórea, podemos pensar na relação desse corpo coletivo com
o espaço, que desempenha diversas funções e movimentos: trazendo o candomblé
para a cena através da apresentação do terreiro e transformando o quilombo[4] em um conceito que apela para
a subversão das estruturas sociais na construção de um território psíquico e
coletivo para o fortalecimento de pessoas negras.
3.
Língua território
Corpo-território-escrita-poética
é, então, a linha que tece e liga o conceito de literatura afro-brasileira aos
elementos identitários apresentados ao longo deste breve texto. Sem dúvidas, a
proposta modernista de crítica ao colonialismo e de inserção de representações
que traduzissem o Brasil fielmente não deve ser desconsiderada, até mesmo pelo
diálogo que os modernistas, em especial Oswald de Andrade e Mário de Andrade,
tiveram com os grupos sociais negros e indígenas.
Contudo,
ainda que esse espaço na literatura tenha sido cedido, o que o mantém em aberto
como forma possível de existência e resistência são as inúmeras presenças de
escritores afro-brasileiros que subvertem a língua, criam territórios de
pertencimento, negociam suas sobrevivências e fazem de sua própria voz o corpo
em devir que os representa, sem necessidade alguma de pedir licença – exceto
quando o quiserem e por sinal de respeito e pertencimento.
Referências:
ANDRADE,
Oswald de. Obras completas VI – Do Pau-Brasil à Antropofagia e às utopias.
Coleção Vera Cruz, volume 147E. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira,
1970.
DUARTE,
Eduardo de Assis. Por um conceito de literatura afro-brasileira. In:
Literafro. Disponível em: < www.letras.ufmg.br/literafro> Acesso em: 02
set. 22.
EVARISTO,
Conceição. Olhos d’Água. Rio de Janeiro: Pallas, 2016.
EVARISTO,
Conceição; TENÓRIO, Jeferson. Escrevivência e narrativas de si: resistências
da negritude (Live). 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cJko2yanHus . Acesso em: 10
ago. 2021.
GONZALES,
Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Revista Ciências Sociais
Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244.
JESUS,
Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.
MARTINS,
Leda Maria. Performances do tempo espiralar. In: Performances, exílio,
fronteiras: errâncias territoriais e textuais. Organização de Graciela
Ravetti e Márcia Arbex. Belo Horizonte: Departamento de Letras Românicas,
Faculdade de Letras/UFMG: Poslit, 2002.
NASCIMENTO,
Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado.
São Paulo: Perspectiva, 2016.
RACIONAIS
MC’S. Disco sonoro Sobrevivendo no inferno (87 min). São Paulo: Cosa
Nostra, 1997.
RATTS,
Alex. Eu sou atlântica - sobre a trajetória de vida de Beatriz
Nascimento. Instituto Kuanza e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: São
Paulo, 2006.
[1] Referência ao poema Irene,
de Manuel Bandeira, trazido em sala de aula para análise.
[2] Refiro-me aqui a uma live,
realizada pela escritora e por Jefferson Tenório, denominada Escrevivência e
narrativas de si: resistências da negritude (2021). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cJko2yanHus .
[3] Faço menção ao conceito de tempo
espiralar, cunhado por Leda Maria Martins, ao refletir sobre a não distinção
entre passado e presente, observada na ritualística do congado mineiro. Ainda
que não se trate de um rito sendo posto em ação, é trazida, por meio da minha
interpretação, a menção à ancestralidade para evidenciar esse contínuo que
caracteriza a relação entre passado e futuro no presente: o passado, o presente
e o futuro são ancestrais.
[4] Outra referência muito importante
para o pensamento em torno do quilombismo é Beatriz Nascimento, que se centra
na ressignificação em torno do termo “quilombo” no presente, fazendo uma
retomada histórica na academia e afirmando a pouca pesquisa historiográfica
sobre esse tema. Essas reflexões se encontram no livro, Eu sou atlântica,
escrito por Alex Ratts, que retoma o pensamento de Beatriz.

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