Corpo em crise contínua: tentativas de se dar forma a uma escrita feminina
Nada vai mudar -
Nada nunca vai mudar –
A mulher é uma construção
(Angélica Freitas. Um útero
é do tamanho de um punho)
1. A
literatura é filha da mulher
Escrever enquanto corpo que se considera
feminino é não somente um desafio como também uma tentativa de se dar forma a
algo em constante transformação, física ou literária. Partindo do pressuposto de
que todo corpo é uma parte-memória de um outro anterior feminino, a literatura feita
por uma mulher, cis ou trans, não deveria ser percebida como um fenômeno da
natureza em relação ao tema, mas à origem: a escrita enquanto manifestação
material de um ato do sensível que só é possível pela encarnação. O verbo veio
da mulher.
E, no entanto, na tal distribuição das
vozes que constam no que podemos estabelecer como gramática, de procedência
filosófica, simbolicamente às mulheres foi dada a voz passiva, conquanto que
para os homens caberia a voz ativa. A sintaxe nos afastou do domínio do verbo e
as concordâncias nominais, quando realizam a junção de substantivos no feminino
e no masculino, assumem o masculino no plural: entre Anita e Tarsila há um
elas, já entre Pagu e Oswald há um eles.
Sendo assim, a literatura, palavra que vem
do latim literis (letra) – tradução advinda possivelmente do grego grammatike
(gramática), constitui-se enquanto um espaço de vozes predominantemente
masculinas: exemplo que ilustra essa compreensão é o fato de se pensar em uma
“literatura feminina/de mulher” e não em uma “literatura masculina/de homem”.
Partindo dessas considerações, é necessário trazer a mulher ao centro da
escrita, retirando-a das dominações das vozes e potencializando-a para além do tema:
eis aí o espaço a ser reestabelecido.
No que tange à literatura brasileira, a
figura da mulher aparece nos textos desde a sua origem[1], como mero adereço de
composição de cena – é na carta de Pero Vaz de Caminha que a figura da mulher
indígena aparece ora pelo espectro da inocência ora pelo espectro da
exoticidade/eroticidade; a presença dessa dualidade será retomada ao longo dos
movimentos pelos quais a literatura passa até chegar ao modernismo, ponto de
ruptura em que a mulher, além de tema, assume a sua voz e dá forma a seu
próprio corpo, que é múltiplo e vivo.
Ainda que sejam presenças
significativamente pequenas diante de todo um cenário composto por homens,
Anita Malfatti e Tarsila do Amaral são exemplos, em seu campo de saber
artístico, de grande expressão do que seria uma arte produzida por mulheres. A
exposição de 1917 de Anita, longe de ser uma “Paranoia ou mistificação?”[2], é, nesse sentido,
privilegiada graças ao fato de vir a designar o que seria visto como uma arte
moderna brasileira: fugindo da figura estática da artista mulher que pinta
sobre cenas domésticas, crianças e paisagens direcionadas às mulheres, Anita se
destaca em seu traço ao realizar retratos e, mais ainda, nudez – temas
culturalmente reservados aos homens.
Após o ano de 1922, marcado pela Semana de
Arte Moderna, outra Tarsila passa a se destacar devido ao seu traço composto
por paisagens e forte influência do que seria visto como popular – reforçando
uma compreensão do coletivo e da nacionalidade presentes em suas obras. Ela
integrava parte de um grupo de modernistas que, em 1924, percorreram as cidades
históricas a fim de buscarem o entendimento das referências do passado
histórico e da paisagem.
Assim na tela, como no papel, a tinta é o
material responsável para inscrever o traço-corpo feminino na literatura
brasileira; nesse sentido, as próximas considerações buscam evidenciar os
diferentes traços-corpos possíveis, por meio de autorias femininas[3], cis e trans, que demonstram
na escrita, de forma tensionada, uma crise imposta por uma mentalidade de
controle.
2. Tentativas
de se traçar um corpo: entre o controle e o descontrole
A escrita, antes de tudo, é gestada em um
corpo. E, se é gestada, parte de um movimento que implica criação e nutrição até
o momento de sua materialização: as musas são mulheres. Portanto, quando Helene
Cixous profere que é preciso que a mulher se escreva e coloque a si mesma como
ponto de partida e que essa trajetória faça as mulheres virem à escrita, ela
evidencia o ato de escrever como o movimento de retomada de um corpo antes
controlado, escrito por mãos que não são suas e em um formato imposto. O retorno
realizado em tintas proporciona a potencialização de um corpo que assume a
sexualidade como uma de suas formas de se relacionar com o mundo-materialidade.
Gilka Machado, ao inscrever seu
corpo-texto vivo e pulsante em seus poemas, brinca com a forma, transformando-se
aos olhos de seus leitores que, escandalizados com a força de sua escrita,
recepcionam-na de forma a tentar controlar a imagem da mulher: não como
fenômeno em sua natureza, mas como modelo universal aos moldes de uma
compreensão fundada no patriarcalismo. A poeta, para além do erótico, assume
seus desejos e faz da figura do homem objeto de menção – subvertendo a lógica
racional e de viés masculino.
Toda essa força pode ser percebida,
principalmente, pela dificuldade de categorização de sua poesia, possuindo, em
relação ao modernismo, ao mesmo tempo, aproximações – pelo uso da temática
feminina – e afastamentos – pela forma ligada ao simbolismo e também ao
parnasianismo. Com isso, pode-se inferir que o traço-corpo-escrita de Gilka
coloca em evidência as tentativas de controle na escrita feminina e isso se
manifesta expressivamente em sua categorização literária.
Anos mais tarde, Ana Cristina César
despontará na literatura brasileira tal qual traço-corpo meteórico, marcado pela
brevidade e rastro luminoso que influenciará outras autorias femininas. No que
tange a sua produção escrita, a autora se destaca por realizar em tinta um
traço-corpo que se movimenta em direção a um alguém; nela há a presença de um
interlocutor implícito, de um caráter citacional, referenciativo, e de um teor
confessional.
É em “Literatura e mulher: essa palavra de
luxo” que a poeta marginal tecerá reflexões sobre a representação da figura
feminina na literatura brasileira, a partir das poetas Cecília Meireles e
Henriqueta Lisboa, as quais apresentam a mulher que possui falas nobres e
elevadas, mas que não se assume enquanto presença – como um exemplo disso, Ana
C. menciona Adélia Prado e a sua poesia que elege a mulher enquanto tema. De
fato, conforme Heloísa Buarque de Holanda salienta, ela se aproxima de Adélia
Prado e de Clarice Lispector por “olhar de perto, com maior ou menor carinho,
os acontecimentos e objetos que compõem o abafado universo feminino.” (p.70).
É impossível passar pela citação anterior
e não mencionar Clarice Lispector, romancista célebre e fundamental para a
literatura brasileira, e sua criação artística que retira a mulher das
periferias da escrita, tornando-a centro. Seja na representação de personagens
humanas como Macabéa (A hora da estrela) e G.H. (A paixão segundo G.
H.) ou na representação de personagens não humanas como a galinha (Laços
de Família), Lispector consegue, por meio do uso do fluxo de consciência,
adentrar em espaços não explorados na prosa literária, até o presente momento
de suas publicações - talvez essa tenha sido a razão de ter encontrado
resistência em relação à recepção crítica de suas obras.
Sua escrita feminina era desafiadora[4] e associava-se ao mistério
por abordar um psiquismo pouco presente no cenário literário, que ainda
considerava comum a expressão “homem das letras”. Privilegiar a mulher enquanto
tema é reconhecê-la enquanto um ser que, para além de desempenhar uma vida
cotidiana, é dotado de um riquíssimo universo particular e simbólico, o qual
versa com a liberdade e a quebra de estereótipos e tentativas de controle. A
psiquê, considerada como o princípio da vida, também parte de um corpo.
Corpo este que é objeto de pesquisa e
criação de Angélica Freitas, autora de Um útero é do tamanho de um punho:
para a poeta, não há linguagem sem corpo e escrever parte de uma pesquisa de
textos “sobre o corpo da mulher e sobre como dar forma ao corpo nos poemas”.
Por isso, uma infinitude de corpos-textos femininos desfila pelas páginas do
livro, desvelando as múltiplas possibilidades de se construir um corpo em tinta
e em construção – não atoa a epígrafe deste corpo-texto apresenta o poema “A
mulher é uma construção”.
Angélica brinca, na forma, com os
estereótipos em torno da representação do corpo feminino, satirizando a
tradição literária e os valores literários, associados comumente à poesia
masculina. Indo além de suas precursoras, a poeta abre espaço temático em sua
escrita para as novas compreensões acerca do gênero na literatura; como pode se
observar a subjetividade de uma mulher trans em “Mulher depois”.
3. A
mulher depois
Desafiar os limites impostos pelo controle
das corporeidades femininas, portanto, implica a compreensão de que, dentro do
que se entende pelo substantivo mulher, há a existência e resistência de
identificações que se aproximam – cis e trans/travestis – e que se distanciam –
pessoas não binárias e agêneras.
Por consequência, a representação da
mulher na literatura brasileira se amplia mais ainda e é possível tanto
realizar releituras sobre obras tidas por clássicas, como é o caso do
personagem Diadorim, de Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, que
pode ser compreendido enquanto um representante não mais da feminilidade, mas
da transmasculinidade[5]; quanto entrar em contato
com produções de autorias transfeminas/travestis – nesse caso, trago os
exemplos na prosa de Amara Moira (E se eu fosse puta) e na poesia de
Kika Sena (Periférica).
Mais do que antes, ser mulher, escrever
mulher é se colocar em movimento, na qualidade de um corpo, físico ou em
tintas, em crise contínua, compreendendo os limites que o termo admite e se
construindo para além deles.
Referências:
BARROS,
Regina Teixeira de. As mulheres na semana de 22 e depois. In: Modernismos
1922-2022. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
CÉSAR,
Ana Cristina. Literatura e mulher: essa palavra de luxo. Almanaque 10. In: Cadernos
de literatura e ensaio. Brasiliense, 1979.
CIXOUS,
Hélène. O riso da medusa. Tradução Natália Guerellus e Raísa França
Bastos. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2022.
FREITAS,
Angélica. Um útero é do tamanho de um punho. São Paulo: Cosac Naify,
2012.
HOLLANDA,
Heloísa Buarque de. É importante começar essa história de algum lugar, ainda
que arbitrário. In: As 29 poetas hoje. São Paulo: Companhia das Letras,
2021.
HOLLANDA,
Heloísa Buarque de. Palavra de mulher. (Não encontrei a referência
completa)
LISPECTOR,
Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LISPECTOR,
Clarice. A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964.
LISPECTOR,
Clarice. Uma galinha. In: Laços de família: contos. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1983, pág. 33-36.
PIETRANI,
Anélia Montechiari. Gilka Machado, poeta moderna. Revista Graphos, v.21,
n.2, 2019.
SANTOS,
Rosana Cássia dos. Clarice Lispector e a autoria feminina: tensões literárias. Revista
da Anpoll, v.51, n. esp., p.16-25, Florianópolis, Jan./Dez. 2020.
[1] Origem, nesse sentido, diz
respeito à menção de um corpo feminino proveniente do Brasil na literatura. Não
estou propondo a carta como o início da literatura brasileira, pois compreendo
a mesma enquanto um sistema (autor-obra-público), conforme Antonio Candido
conceitua.
[2] Referência direta ao artigo de
Monteiro Lobato sobre a exposição de Anita Malfatti, publicado no jornal O
Estado de S. Paulo, em 20 de dezembro de 1917.
[3] Dentro dessa concepção, posso
explorar, ainda, as concepções de autoria cisfeminina e autoria transfeminina e
travesti.
[4] Nesse sentido, se, em O devir
de um corpo (traço-corpo-ensaio escrito sobre a corpoética negra), o pedido
de licença é problematizado e ressignificado, nesse texto também retomo a
ideia, por meio da imagem de um pedido de licença para escrever, para se
deslocar das periferias da escrita. Quando Cixous profere a necessidade de a
mulher escrever sobre a mulher, ela está desafiando essa lógica de licença
pautada na categorização e na seleção; assim como Gilka Machado, Ana Cristina
César, Clarice Lispector e Angélica Freitas. Pedir licença a quem? E por quê?
[5] Faço referência ao texto de Laísa
Marra de Paula Cunha Barros, intitulado Diadorim trans? Performance, gênero
e sexualidade em Grande Sertão: Veredas, apresentado na XIV Semana de
Letras da UFOP, em 2016.

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