Esforço de permanência
Esforço de permanência
Paira no meio dos discursos dos campos de saberes um objeto disforme, um quase corpo. Em meio a falta de ossos, tecidos e ações, a sua singularidade se compõe de tal maneira ímpar que se manifesta pela falta. Ainda não total, ainda vestígio, a literatura aparece (ou será que resiste?) na contemporaneidade sob o signo do devir. Ela é o antes do corpo, a palavra que orienta e traz a criação em si mesma como potência.
Dessa forma, a literatura, sobretudo a contemporânea, produto de tempos que coexistem, reflete, tal qual um espelho, o espaço de construção e humanização do homem. Em um mundo onde a fragmentação não é mais uma possibilidade e sim um pressuposto, cabe a esse campo o esforço de unicidade e permanência frente à passagem de um tempo erguido em meio aos destroços.
Agamben, ao discorrer sobre o contemporâneo, reflete sobre uma postura na qual o homem se volta ao passado para a busca de uma luz que oriente a escuridão do presente; nesse sentido, como produto desse tempo, a literatura seria um instrumento pelo qual a construção do homem se efetiva e o permite se circunscrever em um espaço e tempo.
Não obstante a essa reflexão, o papel do narrador, sujeito que se inscreve e escreve, merece destaque: a ele é delegada a voz que ordena e seleciona os discursos em ação, materializados na escrita. Ele realiza um verdadeiro trabalho de trapeiro, coletando para si os signos que mais são capazes de representar e circunscrever sua experiência diante do mundo. A narração é fragmentada, tal qual sua identidade, e já não dá conta de falar sobre o vivido.
Em suas palavras já mortas, pois, ainda, segundo Agamben, o verdadeiramente humano é aquele cuja humanidade foi integralmente destruída, ecoam o silêncio do grito do que não foi dito, a sobrevivência se torna um atestado de óbito, um esforço de permanência do que já se foi.
O narrador é o de um mundo no qual o real necessita de desmistificações, pois o próprio mundo se mostra inóspito e estranho, segundo Adorno. Assim como está fragmentado o homem e sua percepção de mundo, a literatura, na escrita, ergue-se sobre um terreno de vestígios que não mais espantam, sobretudo porque não são mais exceção e sim regras, assim como os oprimidos de Walter Benjamin.
O seu dever assume, tal qual a história, ares messiânicos e é preciso dar ao homem a sua humanização por meio da confecção de vozes autônomas. Nesse sentido, a importância de seu papel pedagógico de refletir sobre as múltiplas identidades possíveis e atribuir vozes às camadas marginalizadas é um fazer estético que se traduz em político e visa aumentar os contornos do humano, conferindo a ele um compartilhamento simbólico, tal qual uma partilha da experiência sensível.
A emergência dos estudos de memória também é um ponto essencial do argumento desse esforço de permanência, porque adiciona mais ainda a essa vontade de voz um caráter político. A literatura, sobretudo após a década de 60, passa investigar e incluir os discursos que foram apagados pela história ao longo dos anos, preocupando-se em recuperar traços de voz em meio ao silêncio.
O outro entra em perspectiva através do olhar de um sujeito guiado pela ótica do fim e pela necessidade de se preservar os destroços. Há uma multiplicidade de experiências -fragmentos que passam a coexistir dentro desse espaço, permitindo diferentes combinações e vozes: surgem Carolina Maria de Jesus e seu Quarto de despejo, Milton Hatoum e suas Cinzas do Norte, além de Michel Laub e seu Diário da Queda, reflexos de um tempo em vestígios e de várias experiências de identidades.
Devido a esse imperativo, a literatura pode ser vista como ocupante de um lugar de diálogo, fronteiriço em sua essência, onde diversos discursos e tempos se ordenam e coabitam, espaço no qual o humano se singulariza e se multiplica, construindo a partir de sua destruição o traço-corpo que se disforma e se apaga.

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