Desvelamento

 Metade do ano já se passou. 

E eu venho aqui recriar a mim mesma em tinta para ser. 

De 2021 para cá algumas coisas permanecem, outras tantas mudaram, ou melhor, aprimoraram pela transformação e pelo movimento: esse ser que está contínuo. E eu continuo, por muita vontade e amor a tudo isso, materializada em carne e osso, composta pelos meus corpos. A quantidade de coisas me faz mais reagir do que processar. Tenho feito muito e isso é bem agridoce pela pausa cansada e não contemplativa. Sinto falta de mim e de estar com o que me constitui; ao mesmo tempo, valorizo as ricas trocas e os ensinamentos provenientes desses encontros e relações. Me descobri com anseios de me relacionar e esqueci que a troca envolve o risco e a vulnerabilidade. O desvelar-se. Seria o amor isso? O momento em que os véus em dança traçam o ar, preenchendo-o de beleza e sobra o inominável, o absoluto - energia que nos move? Só que pensar nisso me leva ao carrossel emocional que estou passando: a palavra rejeição tem me pego de uma forma que, antes, teve uma breve iluminação, mas que, depois, desceu ás profundezas. Ao longo dos anos, a adoção foi e ainda é, de fato, um ponto nevrálgico em mim. Tudo começa pelo nome... O que significa ser Lorena? Me nomear por Lorena? Saber a história origina o nome que porto? A expressão que vocalizo? Saber que haviam dois nomes, assim como duas possibilidades de entendimento por muitas vezes me afastou de mim mesma. Além do nome, há outros nomes e experiências que ficam lá sem serem sabidas e processadas. Sei que o processamento  é uma possibilidade e não a única via; no entanto,  tenho sido nisso, nessa tentativa de ser, de entender e de experimentar. E essa característica se deve muito às experiências que tive, também compreendo. Fato é que o amor se fez presente em mim e eu desvelei novamente os meus entendimentos sobre ele. Estava passando por angústias não ditas, mas sentidas em cada poro, garganta e coluna sobre a tal da rejeição. Para amar, é necessário entender o mecanismo/entendimento imposto. E não se sentir querida dói, gera uma carência que não parece ter fim. É como se, de tanta fome, eu não conseguisse mais comer e isso me dói porque eu não sei o que é a fome física. Ou talvez, em algum momento muito primitivo, tenha me sentido "marcada" pela falta, a incompletude que nos constitui, só que em proporções exageradas. Talvez por isso a relação conturbada de anos com a comida, com o estar, com o habitar. Tenho medo de perder a casa/a segurança, porque em algum momento já me senti nessa forma. O medo de ser ignorada, de não ser amada, de não vingar. Logo eu, semente potente e fecunda que só os elementos  conseguem ativar. Sobreviver foi sempre o lema. Encaixar. Pertencer. Mostrar-me digna do chão que piso e do nome que porto. Mas e eu como semente inominada e sem terra? Estranhada em mim mesma, esqueci de minha potência. E do que faz toda semente cair no chão e brotar, mesmo em meio aos mais variados cenários: amor. É ele quem faz crescer, é ele quem dá as oportunidades. Como ativá-lo? Ou, até mesmo, como chegar até ele? Cavando nas profundezas desse eu semente em crescimento, sendo uma nele e com ele até o ponto em que os limites não existam e... sermos. Nós. Isso está além do nome.

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