Furacão

 Estar em meio a uma pandemia é como estar no meio de um furacão.

Desde novembro de 2019, quando os primeiros casos de uma doença na China surgiram, seguidos de mortes substanciais, um alerta vermelho soou pelo mundo e não conseguimos, como humanidade, ouvi-lo. Estamos sempre buscando desculpas para pensar que está tudo bem, principalmente quando tudo não está de fato. 

Março de 2020 trouxe os primeiros casos de coronavírus e a necessidade de uma quarentena para barrar a transmissão comunitária, que ocorre quando os casos são substancialmente de transmissões do entorno e não mais de pessoas que vieram de outro país. A doença revelou um sintoma muito característico da nossa sociedade e muitas vezes deixado em segundo plano: a diferença de classes. A primeira ocorrência do vírus se deu por um paciente do Albert Einstein, que havia recém chegado de uma viagem da Itália - o país, naquele momento de fevereiro, enfrentava inúmeras mortes diárias em um nível que chocava o mundo. Mas, ao contrário do choque, a morte de Rosana Urbano, diarista que havia se infectado de covid através de seus patrões, não causou tanta comoção. O lema era trabalhar e ignorar essa "tal gripezinha", como os desgovernantes diziam.

Hoje, 2021 e quase dois anos depois, continuamos a ignorar. Já possuímos acesso a vacina e temos mais conhecimento do vírus e de sua transmissão, mas ignoramos tudo isso porque estamos dentro da mentalidade de segurança. Normalizamos inúmeras mortes diárias e o que assusta é perceber que, alguns países tiveram durante todo esse tempo mortes que ocorreram em apenas um dia. Assusta demais. Revolta. Indigna. Entristece.

No entanto, não é algo novo. 

Todos os países que passaram por processos de colonização possuem, em seu histórico, um rastro de violência, sangue e dor que atravessa os tempos. Em relação ao brasil, toda a sua construção vem de uma subjugação e uma desumanização que ocorre com o erro de portugal ao não achar as índias, na sua procura por especiarias durante a expansão marítima. Um erro que, curiosamente, foi transformado em uma descoberta. Claramente, esqueceram de colocar nas cartas enviadas ao rei que nada foi descoberto, mas achado. A sede de poder fez com que o país ibérico se visse na detenção de um poder que nunca teve e até hoje não tem: dominar um território e uma forma percepção de habitar o mundo. Nisso, milhares de sangues indígenas regaram o solo até o momento em que novos pés por aqui pisaram, durante o tempo em que escravizaram pessoas e produziram horrores maiores ainda. Ambas as mortes não comoveram e, mesmo séculos depois, não comovem. 

Como crer que pessoas que naturalizam mortes cotidianas por violência verão as mortes por uma doença com o seu devido respeito e valor?

Não aprendemos o luto, porque não valorizamos a vida e isso é fato histórico. Seguimos em frente, mesmo sabendo que milhares passam fome, frio e não tem o mínimo de condições para viver. Sobrevivemos e é justamente devido a isso, por não vivermos plenamente, que não enxergamos a morte com sua importância. Caso tivéssemos as necessidades básicas garantidas (alimento, teto, lazer e saúde) e, com isso, pudéssemos viver de forma plena, valorizaríamos a experiência do viver e do morrer e talvez seríamos, de fato, uma humanidade. Ou talvez não. Poderíamos, quem sabe, nos vermos como parte animal da natureza que somos.

Estar em uma pandemia é como estar no meio de um furacão. E talvez seja justamente por isso que podemos perceber que somos o furacão desde o seu 'início'.



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