No meio do sítio, tinha o racismo

        É difícil começar a escrever um texto em que trago e coloco em questão o meu letramento racial e a minha jornada enquanto mulher negra. Evito bastante falar. Como acontece, em sua maioria, com as pessoas negras residentes nessa nossa terra tupinambá, a gente primeiro entende raça através de uma descoberta que se passa pela relação com outro: somos nomeados negros, de forma nem sempre direta, desde muito cedo. Quem de nós nunca percebeu o modo como um coleguinha nosso negro era tratado em sala de aula e pela organização da escola? Quem de nós nunca observou as representações nas mídias de pessoas negras  de forma negativa? 
        A lista de formas com as quais nos percebemos como negros perante aos olhos dos outros se estende por mais e mais exemplos, conforme crescemos e vamos convivendo em sociedade. Sendo assim, o processo de reconhecimento é a transformação de uma experiência negativa vista como individual, absorvida de maneira estereotipada, em uma experiência coletiva. E isso não é realizado sem incômodo. Sair da casca 'confortável' e limitante do senso comum, que ilude as pessoas e as faz crer que somos todos iguais, é entrar em um redemoinho de emoções e de entendimento de violências que não foram processadas e nomeadas, mas que envenenam experiências subjetivas desde a infância. Percebem que começo a falar de mim e chego a um nós? Sou um corpo coletivo. Logo, tudo o que trago aqui, neste texto, parte desse movimento de um eu que se torna nós.
        Fui e ainda sou uma criança curiosa. Daquele tipo de criança que nada ficava escondido e nada passava ileso. Uma das coisas que mais gostava de fazer era de mexer com palavras: brincar de abecedário no quadro de giz, tentar escrever palavras na revista de educação que minha mãe tinha da época em que era professora e ver livros repletos de palavras e ilustrações. Lembro de passar manhãs deitada no sol e olhando livros enquanto tomava meu "café com biscoitinho". Surpresa nenhuma tive quando meu pai, dentro das possibilidades que tínhamos, adquiriu enciclopédias e livros de conhecimento. Naquele momento não compreendia a tamanha desigualdade no mundo. Não vinha de uma família rica, mas tinha alguns acessos. Uma dessas enciclopédias era online. Também não sabia das dificuldades de se ter um computador, até então: o que me recordo é da coleção de livros presentes naquele cd e que rodavam dentro daquele equipamento. 
        Curiosa que era, parei para olhar um deles e comecei a ler. Gostei tanto que li tudo! Era o romance "A moreninha" de Joaquim Manuel de Macedo. Li por conta do título e da narrativa, que julgava interessante. Essa ideia de uma protagonista morena me fez gostar dele, pensando na relação entre branco e moreno - naquele momento não sabia sobre o fato da morenice ser relativa ao cabelo escuro e não ao tom de pele. A partir desse livro, li outros livros do mesmo autor e concluí, junto das leituras físicas que já fazia, que gostava mesmo de literatura. Os anos se passaram e eu cada vez mais me via em diálogo com a leitura: vi Harry Potter no cinema e passei a procurar os livros. Devorava vários. Chegava a ir dormir super tarde porque não queria fechar o livro. Era o meu universo. Virei monitora de português e literatura no ensino médio e passei a me relacionar mais com a escrita do que com os números, embora fosse bem em ambos. 
     Nenhuma surpresa meus pais tiveram quando escolhi o curso de Letras, ainda que tenha feito exames para Direito, Comunicação Social e até Arquitetura, rs. No primeiro período, tive a comprovação de que estava no curso certo: amava o que estudava e decidi que, mesmo tendo a opção de mudar de curso e de universidade, ali continuaria. Os períodos passaram e esse contato com essa área foi aumentando até o momento em que, em uma aula, falei sobre "A moreninha" e o seu impacto na minha vontade de ler livros. A professora, a quem sou muito grata, me ofereceu a oportunidade de realizar um projeto com ela sobre esse livro e a edição dele realizada por Monteiro Lobato.

       Sim, M-o-n-t-e-i-r-o L-o-b-a-t-o.

   O mesmo autor, editor, ilustrador e empreendedor que, hoje, é principal alvo de críticas das comunidades negra e indígena brasileiras. E com razão. 
       Lobato era neto do Visconde Tremembé e havia nascido em Taubaté poucos anos após a abolição da escravatura. Além disso, ele é nacionalmente conhecido como o "pai da literatura infantil" devido a sua obra do Sítio do Pica Pau Amarelo. Em "Caçadas de Pedrinho", a cena em que as onças chegam ao sítio e Tia Nastácia fica apavorada e trepa "que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima,  com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa senão trepar em mastros". (p.35)* se transformou em principal argumento pela retirada das obras do autor das indicações de leitura em sala de aula. Isso ganha respaldo também pela simpatia do escritor com as ideias eugenistas, presentes em seu livro de correspondências com Godofredo Rangel intitulado A barca de Gleire, e com a publicação de seu único romance, O presidente negro, que sugere uma limpeza étnica em meio a uma eleição norte americana. Ademais, Lobato também é duramente criticado por se apropriar das cosmovisões indígenas e colocá-las sobre o nome de folclore em suas obras infantis e, até mesmo, nos livros de contos.

       E eu, uma mulher negra, acabei estudando-o em projeto e no TCC. Engraçado, não é?

    Pois bem, o projeto buscava equiparar a versão de A moreninha original com a versão da Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato, presente no que se nomeia como a Coleção Popular - escolha da editora, uma das pioneiras no Brasil além da famosa Garnier, que investiu na popularização de romances que haviam sido cedidos ao domínio público e atraiam leitores. O meu interesse era perceber como um escritor editava uma obra e se havia interferências estilísticas nessa edição, configurando-a em um caso de coautoria. Para isso, li página por página das versões, identificando as mudanças. Além disso, precisei ler a obra de Lobato para entender o Lobato escritor (os livros de contos Urupês, Cidades Mortas, Negrinha, O macaco que se fez homem e o romance O presidente negro) e as correspondências entre ele e Godofredo Rangel. 
        Nessas correspondências, aparecia de tudo: detalhes da vida pessoal, profissional e, até mesmo, as convicções literárias e filosóficas do autor - a eugenia estava presente. Ao mesmo tempo, também percebi que ele comentava sobre interferências nos textos e também sobre suas questões com a gramática e a escrita. No final da pesquisa, pude compreender que houveram mudanças significativas nas duas versões e que elas eram tanto lexicais de atualização (conforme o acordo ortográfico de  1911) quanto estilísticas do próprio escritor (mudanças de pontuação, parágrafos, supressão de frases, troca de expressões e inserção de vocabulário do Lobato). Com isso, configurava-se um caso de coautoria. 
        Ao mesmo tempo, também percebi uma mudança, ainda que pequena, na escrita dos personagens, principalmente de Raphael, menino escravo, pertencente à protagonista da história, Carolina: Macedo colocava Raphael como criado objeto, apenas um garoto com sua função; enquanto Lobato o dotava de qualidade, colocando um adjetivo e o tornando mais humanizado - era o doce, querido Raphael. Mudança mínima, porém significativa de uma transformação de olhar perante a pessoas em escravidão.
       Também percebo em Negrinha, uma trama que mostra a perversão de dona Inácia - que não por acaso era cristã e defensora de um conservadorismo nos modos - com a menina orfã, filha de uma antiga empregada/escrava, a qual se torna parte da fazenda. Negrinha não teve direito ao nome, muito menos a uma humanidade pra si - Inácia, mesmo após a abolição, fazia de tudo para torturar a menina com atos de extrema brutalidade. No natal, suas sobrinhas vieram lhe visitar e ganharam uma boneca: presas dentro de seu mundo ainda não contaminado pela segregação, as meninas chamam negrinha para brincar e ela vai, mesmo sabendo dos olhares de sua dona. Negrinha, ao ver o novo mundo de possibilidades, é tomada por uma tristeza que a mata e sua morte é solitária, sonhando com bonecas louras e anjos. As únicas lembranças que lhe sobram ao se descobrir criança é das meninas ao lhe verem com espanto e a saudade da dona Inácia que perdeu seu antigo brinquedo de descontar brutalidades.  
        É impossível ler Negrinha e interpretar como um conto racista, a meu ver. Mais estranho ainda é perceber as tendências eugenistas de Lobato depois de ter escrito um conto tão doloroso e revoltante, que mostra a desumanização em sua pior face: repudiamos dona Inácia, não aceitamos a maneira indigna com que trata outro ser. De modo que, para mim, que o estudei, é difícil colocá-lo como racista ou não racista, porque há níveis e pontos que podem sim colocá-lo dessa forma. E são legítimos. Por outro lado também há, para quem o estudou, o entendimento de uma mínima mudança no olhar para pessoas negras. 
    No meio do meu universo, o sítio está em conversa com um racismo que perdura. Não consigo sentir vergonha do que estudei de Lobato, mas sei que é importantíssimo olhar as identidades negras, e não somente elas como também as indígenas, dentro desse universo criado por ele, pela sua projeção como autor brasileiro. De fato, no meio do sítio, tinha o racismo.
  
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* Caçadas de Pedrinho. 25ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1976.      

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